Viva a Criatividade!

Nos dias 20, 21 e 22 de abril vai acontecer o  World Creativity Day, um festival colaborativo internacional que ocorre simultaneamente em diversas cidades espalhadas pelo mundo, inclusive aqui em Ouro Preto e Mariana. O evento, idealizado por um brasileiro, o psicólogo e empreendedor Lucas Foster, tem uma longa e curiosa história, atravessada por coincidências e confluências. A história completa pode ser lida no relato publicado por Lucas no livro sobre o evento de 2020. Lá, ficamos sabendo que já existia uma comemoração no Canadá, que começava no dia 15 de abril, em homenagem a Leonardo da Vinci, e em Portugal a data também já era comemorada. Ou seja, a criatividade já estava no radar de muitos países, só faltava um reconhecimento oficial da ONU.  

Segundo Lucas, só a criatividade tem a capacidade “de criar o futuro e transformar o mundo em um lugar melhor para todos”. De fato, a criatividade é uma capacidade muito poderosa, e não é necessariamente uma exclusividade humana. Muitos seres vivos precisam ser criativos para sobreviver, basta observar a impressionante criatividade dos macacos-prego. Seja como for, a criatividade teve um papel decisivo na sobrevivência da nossa própria espécie e, pelo visto, vamos precisar ainda mais da criatividade para continuar por aqui. 

Datas comemorativas são estratégicas e indicam a relevância de temas que normalmente não têm espaço na grande mídia. Em 2017, a ONU reconheceu o dia 21 de abril como o Dia Internacional da Criatividade e da Inovação. Segundo o documento oficial que trata da criação da comemoração, a data ajuda a “sensibilizar para o papel da criatividade e inovação na resolução de problemas e, por extensão, no desenvolvimento econômico, social e sustentável”. No documento, a ONU também afirma “que a criatividade e a inovação humana, tanto no nível individual quanto no de grupo, tornaram-se a verdadeira riqueza das nações no século XXI”. E ainda indica que o objetivo da comemoração é fortalecer estratégias mais sustentáveis de crescimento através da economia criativa e da indústria criativa. 

A Economia Criativa compreende todos os setores produtivos que trabalham com processos de criação e inovação. Os estudos sobre essa cadeia produtiva apontam a importância cada vez maior desses setores no cálculo do PIB em diversos países. Reconhecendo a importância estratégica desse setor, muitos governos têm até políticas públicas de economia criativa

Quanto aos tipos de atividades relacionadas com a Economia Criativa, podem existir muitas variações, dependendo do país ou da abordagem usada. Levando em conta o contexto brasileiro, acho que podemos reconhecer pelo menos quatro eixos de atividades: 

  • Comerciais: arquitetura, moda, culinária, design e publicidade;
  • Comunicativas: audiovisual, jornalismo, editorial, autoria e curadoria digital;
  • Culturais: música, patrimônio, artes, teatro e expressões culturais tradicionais;
  • Tecnológicas: programação, biotecnologia, engenharia, pesquisa e desenvolvimento.

Obviamente, isolar o impacto econômico dessas atividades é muito difícil, pois elas acabam afetando outras atividades indiretamente. Por exemplo, um festival de cinema pode trazer clientes para o setor de transportes, hospedagem, alimentação, etc, além dos tributos arrecadados pelo poder público. Inclusive, hoje em dia com os recursos digitais a potencialidade de nossa criatividade se multiplicou e os desdobramentos econômicos também.  

John Howkins foi um dos primeiros autores a falar de economia criativa. Segundo ele, nos Estados Unidos, na China e em alguns países da Europa, a economia criativa tem crescido três ou quatro vezes mais que o resto da economia. Para ele:

“O crescimento será mais rápido em países onde a Economia Criativa é forte e saudável. Criatividade é uma ferramenta de sobrevivência. Conforme nos movemos em direção a um mundo automatizado, onde Inteligência Artificial, algoritmos e robôs substituem os empregos de várias categorias de trabalhadores, a criatividade ganha ainda mais destaque. Por isso, o país que não estabelecer uma economia criativa vibrante e fortalecida em um prazo de cinco a dez anos, vai enfrentar problemas consideráveis.”

Lançado em 2010, o livro Mainstream, do pesquisador francês Frédéric Martel, é a pesquisa mais completa feita até hoje sobre a cadeia produtiva da economia criativa. Ele visitou mais de 30 países e entrevistou mais de mil pessoas diretamente ligadas ao setor. O panorama que ele apresenta ajuda a entender como esse setor é dinâmico e como está cada vez mais descentralizado e global. Não se pode negar que a base da economia criativa se sustenta sobre o conceito de propriedade intelectual, ou copyright. Mas não se trata apenas de uma questão comercial. Segundo ele, vivemos uma guerra global pela hegemonia narrativa. Os Estados Unidos não detém mais o monopólio do soft power cultural, pois artistas e produções fora do eixo estão se multiplicando. Recentemente, Anitta se tornou uma das artistas do Spotify mais ouvidas no mundo. E isso tem implicações políticas, culturais e econômicas. 

Por tudo isso, é muito importante um evento como o Dia Mundial da Criatividade. Esse ano, estão previstas diversas atividades, presenciais e remotas. O evento também marca o lançamento do Distrito Criativo Passagem, um HUB de serviços e conteúdos criativos em Mariana. O Distrito chega com a proposta de alavancar a economia criativa da região, agregando vários espaços locais de criação e formação. Passagem já é reconhecida por diversas iniciativas culturais, como o Circovolante e o Clube Osquindô, entre outras. Agora, com o Distrito Criativo, o potencial cultural da região tende a crescer, pois o Distrito vai ser uma ponte importante entre os profissionais criativos da região e pode ter um impacto significativo na geração de renda e criação de novas oportunidades para os profissionais do setor. 

Para citar um exemplo do impacto positivo que a economia criativa pode ter em uma região, vale lembrar da iniciativa do Polo Audiovisual da Zona da Mata, que ajudou a criar um curso de cinema e animação em Cataguases em parceria com a UEMG. Junto com o curso, está prevista a criação de um centro de formação e produção, o Animaparque. É impressionante a quantidade de atividades criativas que podem ser fomentadas com essa iniciativa. Iluminadores, eletricistas, hotelaria, figurinistas, dubladores, músicos, etc. Uma forma muito interessante de unir criatividade, inovação, educação e geração de renda.

No dia 21, aqui em Ouro Preto, gostaria de convidá-los para bater um papo sobre criatividade e educação no espaço do CEOP, uma cooperativa educacional que está completando 25 anos de estrada! Apareçam, todos os eventos são gratuitos. A programação completa das atividades em Ouro Preto e Mariana, informações e inscrições já estão disponíveis no site do evento. Lá também é possível consultar todas as atividades previstas no mundo. Só no Brasil, até agora, já são mais de 2 mil! Haja criatividade!

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Andre Stangl – Ouro Preto-MG, publicado em 16/04/2022
Coordenador da Oficina de Linguagens Digitais
Professor de Filosofia e Educação Colaborativa (CEOP)
Doutor em Comunicação (ECA/USP)

Essa coluna também foi publicada em texto e áudio na Agência Primaz.

Crédito da imagem: Zé Pereira dos Lacaios Mirim – Carnaval de Ouro Preto 2019 por Ane Souz. Reprodução permitida apenas para fins jornalísticos, institucionais e didáticos desde que mantida a referência à autoria com os devidos créditos.

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