A Pedagogia Freinet e a Educação Digital

É impressionante a atualidade das propostas pedagógicas do francês Célestin Freinet, mesmo depois de quase 100 anos. Sua vida e obra são dignas de filme, e até já fizeram dois filmes sobre ele, um em 1949 e o outro em 2006. Isso sem contar os inúmeros documentários a respeito das suas ideias. Mas merece destaque especial o que foi feito no Brasil pela Atta Mídia Educação e está disponível no Youtube. Através dele, é possível conhecer um pouco do seu pensamento, além de ver aplicações das suas propostas pedagógicas no contexto educacional do Brasil.

Para Freinet, a escola deve oferecer condições para que os alunos encontrem formas de se expressar, e esse caminho só é possível quando se leva em conta os interesses do aluno. A possibilidade de escolher sobre o que falar, desenhar, ou escrever é fundamental para despertar o interesse do aluno em se apropriar dessas técnicas. Ainda mais se for possível compartilhar essa produção através de uma publicação, como um jornal ou mural escolar.  Segundo Freinet, essa é uma forma interessante para as crianças e os jovens descobrirem uma forma ativa de participar do mundo, por isso essa busca deve ser livre. Será se comunicando com outras pessoas que o aluno vai conseguir desenvolver a competência necessária para ser ouvido e  compreendido. E como eles estão se comunicando de forma pública, acabam aprendendo a consequência social daquilo que estão dizendo. Isso ajuda a desenvolver um senso de responsabilidade compartilhada, ou seja, a base da cidadania. 

Diversas experiências com o Jornal Escolar comprovam o poder de engajamento desse tipo de estratégia, é um aprendizado que as crianças levam para o resto da vida. Hoje em dia, com as ferramentas digitais, essa estratégia ganha uma importância ainda maior. Sendo uma excelente porta de entrada para a Educação Digital e uma forma de aprender fazendo, que ajuda na compreensão das consequências sociais e políticas daquilo que consumimos e compartilhamos nas redes digitais.

Por isso, é muito  importante que os alunos escolham os assuntos que querem tratar, pois será a partir desse interesse que eles vão ter a motivação para cuidar da qualidade dessa mensagem. Os temas estranhos ao ambiente escolar poderão ser remodelados coletivamente. Como acontece nas redações de jornais, nas reuniões de pauta e através de conselhos editoriais. A colaboração é fundamental para conseguir fazer qualquer revista ou jornal, algo que alunos também vão perceber na prática. A diversidade de interesses, de temas, de linguagens também é muito interessante e instrutiva. Alguns vão preferir usar textos, outros podem preferir usar imagens, vídeos ou áudios. 

Freinet também considerava muito importante estimular a comunicação direta dos alunos entre si. Na sua época, era através de cartas, mas hoje, com as redes, é ainda mais importante encontrar meios de qualificar essa comunicação direta. Basta ver a dificuldade dos mais jovens de conversar e se entender nas redes. Cada vez mais monossilábicos e, quando muito, limitando-se a responder qualquer coisa usando emojis. Seria ótimo se as escolas encontrassem uma forma de estimular a conversa entre alunos de contextos culturais diversos. O desafio de se comunicar com alunos de outros contextos é algo que acaba provocando uma consciência maior sobre sua própria comunidade. Imagine um grupo de crianças mineiras tentando explicar para crianças baianas o que é um trem, ou as crianças baianas explicando o que é um acarajé. Com as plataformas digitais, esse diálogo pode acontecer de uma forma muito intensa e divertida. 

Para Freinet, a vida real é a grande escola de todos nós. A Matemática ganha outro sabor quando trata das equações do cotidiano. A Ciência e a História estão ao nosso redor, a Literatura é apenas uma forma de olhar para isso tudo. E nada faria sentido sem a presença do nosso corpo em um lugar, sobre um chão embaixo de um céu, como nos lembra a Geografia. Mesmo que hoje a vida seja um pouco diferente e parte considerável da experiência dos jovens atualmente seja através das telas, a Comunicação ainda precisa incluir os nossos interesses e nossas escolhas. Devemos aprender a trabalhar com elas, praticando, errando e acertando. Só assim o sentido comum de nossas vidas poderá ganhar alguma importância.

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Andre Stangl – Ouro Preto-MG, publicado em 29/03/2022
Coordenador da Oficina de Linguagens Digitais
Professor de Filosofia e Educação Colaborativa (CEOP)
Doutor em Comunicação (ECA/USP)

Essa coluna também foi publicada em texto e áudio na Agência Primaz.

Crédito da imagem: “Photomontage” by idccollage is marked with CC BY-SA 2.0.

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