Hackers: mocinhos ou bandidos digitais?

O sociólogo espanhol Manuel Castells, no seu clássico livro “A Galáxia da Internet” (2001), traça um um panorama muito interessante sobre a origem da Internet. Entendendo a Internet como uma nova cultura, ele identifica dois grandes grupos de usuários: aqueles que produzem e aqueles que consomem tecnologia. E entre os que produzem, segundo ele, existem quatro subgrupos: As tecnoelites, os empreendedores, as comunidades identitárias e os hackers.  

As tecnoelites são os desenvolvedores e programadores, são os cientistas da cultura digital. Uma comunidade de especialistas que compartilham a crença na tecnologia com um bem em si, ou seja, acreditam que todo desenvolvimento tecnológico é um benefício para a humanidade. Algo que os responsáveis pela criação da bomba nuclear, por exemplo, viram que não é tão simples. Todo avanço tecnológico pode ter consequências indesejáveis. A Internet nasceu dentro dos centros de pesquisa nas universidades e em outras instituições governamentais, como o Exército. A primeira rede de computadores, chamada Arpanet, criada em 1969, era um projeto do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

O subgrupo dos empreendedores digitais levou a Internet para o resto do sociedade, criando as empresas .com e os serviços domésticos de acesso à rede, como os provedores pagos. Segundo Castells, eles são extremamente ambiciosos e, muitas vezes, ignoram as consequências sociais de seus empreendimentos, uma vez que a busca pelo lucro direciona suas ações. Diferente do modelo industrial, que dependia principalmente da transformação de materiais para criar valor, os novos empresários criam valor transformando mentes e capturando nossa atenção.

O terceiro subgrupo de usuários produtores é formado por coletivos comunitários. A Internet possibilitou agregar pessoas com interesses semelhantes e que antes estavam isoladas pela distância física. Depois, com as redes sociais digitais, esse tipo de identificação ganhou tanto poder que hoje tem implicações na política e na economia. Castells identifica nesses grupos um retorno dos ideais comunitários da contracultura dos anos 60 e 70. É indiscutível a força dessas comunidades, mas elas nem sempre são necessariamente progressistas, como antes alguns pesquisadores acreditavam. 

Por fim, o quarto subgrupo, os hackers. Um prato cheio para as narrativas ficcionais e para as manchetes de jornais. Habitam nossos pesadelos mais despóticos e também nossos sonhos de um mundo digital mais justo e igualitário. O conceito de hacker se tornou cada vez mais complexo. No começo, existia uma distinção entre hacker e cracker, ou seja, entre mocinhos e bandidos. Com o tempo, essa distinção caiu em desuso e podemos dizer que, da mesma forma que existem policiais honestos e outros não, sem a necessidade de criar um termo específico, existem hackers legais e outros nem tanto. 

Para tentar entender esse subgrupo, vamos ver alguns exemplos. Em 1981, um dos primeiros hackers da história, o Capitão Zap, trocou o sistema de cobrança da companhia telefônica dos Estados Unidos, invertendo a tarifa mais barata da meia-noite com a do meio-dia. Uma brincadeira que teve consequência no bolso de milhares de consumidores. Seria ele uma espécie de Robin Hood moderno? Ou simplesmente um vândalo? Na coluna passada vimos um pouco da história dos hackers que criaram os softwares livres e de código aberto. Uma parte dos hackers defende uma forma radical de ativismo digital. É o caso do WikiLeaks, um coletivo que publica informações de fontes anônimas e dados sigilosos, revelando bastidores de guerras, espionagem e outros crimes cometidos por governos e autoridades. Segundo a Wikipédia, desde 2006 eles já publicaram mais de 10 milhões de documentos. Um de seus fundadores, Julian Assange, enfrenta problemas com a justiça desde 2010 e atualmente está preso na Inglaterra. Outro grupo de ativistas hackers bastante conhecido é o Anonymous. Essa semana, eles afirmaram ter conseguido hackear a TV estatal russa e exibir imagens da guerra na Ucrânia. Algo que o governo russo afirma ser apenas uma operação especial.  

Os hackers são uma das pedras fundamentais da cultura digital. A caracteristica desse grupo é a defesa incondicional da liberdade de acesso a todo tipo de informação e seus inimigos são as empresas ou governos que limitam o acesso a essas informações. Para Castells, a cultura hacker é um esforço coletivo de cooperação livre e informal. E pode ser compreendida como um tipo de cultura do dom (doação), semelhante ao conceito de dádiva de sociedades tradicionais  – em que o importante é dar para receber. Ou seja, da mesma forma que a Wikipédia (onde a informação é dada de graça), ou das redes p2p, nas quais os usuários trocam arquivos digitais, a famosa pirataria. Trazendo, assim, um novo entendimento sobre os limites legais do direito de propriedade e de autoria, um dos pontos centrais do debate sobre a cultura hacker. Na famosa Declaração de Independência do Ciberespaço de 1996, John Perry Barlow defendia a Internet como uma utopia digital, livre de todas as restrições do mundo mundo físico, tendo como único princípio regulador a ética da reciprocidade. Na gestão do ministro tropicalista Gilberto Gil, quando a questão dos direitos autorais foi muito debatida, ele chegou a afirmar que era um ministro hacker.  

Mas, apesar das boas intenções de alguns hackers, em geral, a imagem deles é sempre associada aos perigos da vida digital. Celulares clonados, contas sequestradas, dados vazados, vírus digitais, sites desfigurados, etc. Segundo a Wikipédia, existem quatro tipos principais de motivação para invasões de hackers. Primeiro, envolve algum ganho financeiro de forma criminosa através do hackeamento de sistemas com o objetivo específico de roubar números de cartão de crédito ou manipular sistemas bancários. A segunda motivação é reconhecimento social por outros hackers, deixando marcas que identificam a autoria de um ataque a sites ou sistemas, como fazem os pixadores quando deixam suas marcas em lugares aparentemente inacessíveis. A terceira motivação é a de espionagem corporativa, permitindo que empresas roubem informações privilegiadas sobre produtos ou serviços, lembrando que no ambiente corporativo também existem hackers pagos para testar a segurança de seus sistemas. Por fim, existem os ataques patrocinados pelos governos, configurando uma das estratégias das ciberguerras.

A cultura hacker é uma construção coletiva, em permanente evolução e com contradições que marcam sua história, assim como qualquer outra cultura humana. Podemos pensar em alguns hackers como se fossem chaveiros, e quem vai negar que às vezes eles são muito úteis. Alguns hackers também podem funcionar como a vitamina S, ajudando o sistema imunológico digital a se fortalecer. Portanto, podem servir como um alerta permanente, para usarmos as tecnologias digitais com cuidado e bom senso.

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Andre Stangl – Ouro Preto-MG, publicado em 09/03/2022
Professor de Filosofia e de Colaboração Digital (CEOP)
Doutor em Comunicação (ECA/USP)
Coordenador da Oficina de Linguagens Digitais

Essa coluna também foi publicada em texto (link) e áudio (link) na Agência Primaz.

Crédito da imagem: “Everybody needs a hacker” by Alexandre Dulaunoy is marked with CC BY-SA 2.0.

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