O poder da colaboração digital

Um dos aspectos mais interessantes da cultura digital foi o surgimento de novas formas de colaboração em grande escala. A tecnologia das redes permite a colaboração à distância, em tempo real ou de forma assíncrona. A Wikipédia, por exemplo, é uma enciclopédia colaborativa, em permanente atualização, disponível em quase todas as línguas existentes, que pode ser consultada gratuitamente. Um projeto desse tipo só foi possível por conta da Internet. Mas há outro aspecto fundamental para fazê-lo existir: um objetivo comum. Sem isso, não conseguimos colaborar.

Todos os voluntários que colaboram com a Wikipédia concordam com suas regras e dedicam horas de suas vidas para escrever e zelar pela qualidade do conteúdo da enciclopédia. A diretora de comunicação da Wikipédia, Anusha Alikhan, disse em uma entrevista que são “55 milhões de artigos publicados em 300 línguas, a Wikipédia conta com 1,5 bilhão de acessos únicos mensalmente. A plataforma é editada 350 vezes por minuto e é lida mais de 8 mil vezes em um único segundo”. Segundo ela, um erro na plataforma leva em média 5 minutos para ser identificado e revisado. Atualmente, o foco é ampliar a diversidade de colaboradores e de grupos sub-representados. 

Para o historiador israelense Yuval Harari, a cooperação social foi fundamental para a reprodução e para a sobrevivência da nossa espécie. Mas essa cooperação não seria possível sem uma linguagem comum. O desenvolvimento da linguagem permitiu a construção de narrativas de engajamento, como os mitos. Sem isso, não seria possível organizar os diversos interesses da nossa espécie em seus projetos comuns. Cidades, culturas, empresas, religiões, ciências, leis dependem da linguagem para constituir seus objetivos comuns. A clareza desse objetivo é fundamental para a qualidade do engajamento e da colaboração. Muitos são os exemplos do poder da colaboração na história da humanidade. 

Na Cultura Digital, além da Wikipédia, outro exemplo do poder da cooperação é o desenvolvimento colaborativo de softwares livres e de código aberto, como os sistemas operacionais baseados em Linux: Ubuntu, Android e Chrome OS. O Movimento do Software Livre surgiu na década de 1980, criado por Richard Stallman, com o objetivo de manter a linguagem dos sistemas operacionais acessíveis para programadores e estudantes. Na época, empresas como Apple e Microsoft estavam criando o mercado dos softwares proprietários. Não custa lembrar que uma boa parte desses códigos era desenvolvida em universidades e sempre foi acessível. Pois a base de toda programação é uma linguagem. Sem os softwares, os humanos não conseguiriam conversar com as máquinas. O processo de desenvolvimento dessas linguagens foi coletivo, como em qualquer língua. 

Mas a forma como a indústria e as empresas de tecnologia passaram a regulamentar isso através da propriedade intelectual, ou copyright, é totalmente diferente da forma como as línguas nacionais foram constituídas e compartilhadas. É inimaginável uma empresa ser a proprietária exclusiva das regras gramaticais que regulam o funcionamento da língua portuguesa, por exemplo. Não pagamos copyright por usar conjugações ou concordâncias verbais. Até é compreensível que em algumas criações, como é o caso dos romances e das poesias, a autoria seja reconhecida e protegida por direitos de propriedade intelectual. Por isso é importante a coexistência dos dois modelos, um aberto e outro não. 

Todo software livre tem o código aberto, mas nem todo software de código aberto é licenciado como software livre. Existem softwares de código aberto que não são livres, ou seja, são licenciados com algumas restrições. Esse é o caso do Android e do Chrome OS, sistemas desenvolvidos pela Google. 

Para nós, leigos, é difícil entender o alcance desse tipo de colaboração. Fica mais fácil se olharmos o exemplo do Fandom. Páginas na Internet semelhantes a Wikipédia, criadas por fãs sobre seus personagens favoritos. Existem fandoms sobre Harry Potter, sobre Star Wars ou mesmo Naruto. A quantidade de informações reunidas nesses fandoms jamais poderia ser reunida por um único fã ou mesmo por uma empresa. 

Por fim, também podemos usar o futebol como metáfora para entender o poder da colaboração. Um time é um coletivo com um objetivo comum: ganhar do time adversário. Essa meta serve para organizar as ações coletivas que podem ampliar as possibilidades dessa vitória. Todos no time precisam compartilhar esse objetivo, e cada um pode colaborar usando sua própria habilidade, seja no gol ou no ataque. Os considerados mais habilidosos serão convocados. A meritocracia acaba sendo determinante para compor as melhores equipes. Os talentos individuais são facilmente reconhecidos, mas sozinhos não são suficientes para levar um time até a conquista de um campeonato. Um time só de zagueiros não sobrevive a um bom contra-ataque. O trabalho conjunto e até um pouco de sorte podem ajudar bastante. 

Na cultura digital é bem parecido. Os times de colaboradores na Wikipédia, no Waze ou no Linux vão selecionando os melhores jogadores. E estes vão subindo na hierarquia do jogo. Um bom jogador está atento às regras da comunidade e está sempre colaborando com o objetivo comum. É a própria comunidade que zela pela qualidade jogo, assim, quanto mais pessoas colaboram, mais rápido eventuais equívocos são corrigidos. Em geral, o objetivo desses times é ajudar a humanidade a ganhar o campeonato da sobrevivência, levando conhecimento e informação de forma acessível para todos. E esse ideal é show de bola!

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Andre Stangl – Ouro Preto-MG, publicado em 24/02/2022
Professor de Filosofia (CEOP), Educador Digital e Doutor em Comunicação (ECA/USP)
Coordenador da Oficina de Linguagens Digitais

Essa coluna também foi publicada em texto (link) e áudio (link) na Agência Primaz.

Crédito da imagem: “OSI And FSF in unprecedented collaboration to protect software freedom” by opensourceway is licensed under

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