Educação Midiática I

Parte I

Conheci a proposta do EducaMídia em 2019 em uma reportagem na Folha (link), e desde do começo me identifiquei com os seus anseios. Ao mesmo tempo fui me reinventando, sempre tive um pé na academia e outro fora, assim inspirado pelo EducaMídia fui gestando a ideia da Oficina de Linguagens Digitais.

Em meio a pandemia surgiu a chamada para o Programa Online de Certificação de Multiplicadores do EducaMídia e tive o privilegio de ser selecionado. A formação começou em outubro e vou usar esse espaço como uma espécia de diário para compartilhar e organizar a memória dessa experiência.

A semana inicial foi apenas de boas vindas e na segunda semana o tema geral foi: Como aprendemos no século 21?

A primeira atividade foi uma rodada de apresentações no Classroom (são mais de 700 participantes, divididos em 7 grupos de mais ou menos 70 pessoas!). Além do Classroom a nossa forma de interagir com os colegas é através do whatsapp, não é a minha forma de interação preferida, mas sem dúvida é a mais popular… também fizeram um padlet com apresentações e os links das redes sociais dos participantes e um pearltrees com dicas e links relacionados ao curso.

Me chamo Andre Stangl, sou baiano e também meio paulista. Atualmente sou coordenador da Oficina de Linguagens Digitais em Ouro Preto-MG. Desde do final dos anos 90 que estou envolvido em projetos de formação e criação com tecnologias digitais, comecei fazendo web design e produzindo música eletrônica, depois colaborei com diversas iniciativas (aqui tem um resumo dessas experiências https://andrestangl.wordpress.com/sobre/). Me formei em filosofia (Ufba) e mergulhei na vida acadêmica (apesar da dislexia/disgrafia…). Depois de um mestrado (Facom-Ufba) sobre identidade cultural na rede, fiz doutorado na Eca-Usp sobre os desdobramentos de nossa atenção no mundo digital, um tema que considero diretamente relacionado com a aprendizagem. Nesse meio tempo desenvolvi oficinas de cultura digital em escolas públicas e até uma disciplina para o ensino médio (SP). Além de diversos cursos com aspectos teóricos e práticos para alunos de cursos de comunicação (BA e MG). Mas sem dúvida, são os desafios cotidianos de educar uma criança nos dias de hoje que tem sido minha maior motivação, minha filha está fazendo 9 anos e nem preciso dizer que é aí que o bicho pega…rs. (Até entrei no Minecraft…). A Oficina de Linguagens Digitais, nasceu mais ou menos na mesma época que conheci a proposta da EducaMídia, que acabou sendo uma de minhas inspirações. Mas só consegui formalizar a proposta no fim do ano passado, quando me inscrevi como MEI. No começo a Oficina tinha um desenho mais próximo das atividades presenciais, pensando nas instituições e no pessoal local que ainda não se sentem muito a vontade nesse mundo digital, ou seja alguns profissionais e professores, além de crianças e idosos (aqui minha mãe é a grande inspiração…). A ideia seria aproximar essas pessoas usando as tecnologias de forma criativa e divertida, fazendo vídeos, sites, memes, remixes, etc. Mas a pandemia chegou e confesso que ainda não sei como seguir em frente, por isso estou por aqui… vai ser muito bom aprender e trocar com vocês.

Em seguida nos pediram que formulasse uma pergunta sobre a proposta do EducaMídia, partindo de dois vídeos. (link1) e (link2).

Minha pergunta (provocação?) foi a seguinte:
Por que é importante falar em Educação Midiática no Brasil, já que o pais é segundo o Pisa (https://folha.com/ha0ry654) um dos piores na proporção de computador por aluno?

Sei que a resposta é difícil, mas acho que o caminho é aliar a Educação Midiática com a inclusão digital, através de politicas públicas e iniciativas privadas.

A terceira atividade foi refletir sobre o conceito de letramento digital, partindo do vídeo (link). Minha resposta, foi também um desabafo…

Ótimo vídeo, alguns desses questionamentos já me acompanham a bastante tempo… Peço licença para compartilhar com vcs aqui algo que carinhosamente escrevi para a escola de minha filha: Nos relatos das transformações que nossa sociedade tem vivido nos últimos séculos, muitos cenários sofreram mudanças drásticas. Por exemplo, nos transportes desde as carruagens e caravelas até chegar aos automóveis e aviões quanta coisa mudou. Na medicina, da época das sangrias até chegar nas vacinas e etc. Os exemplos de transformações em diversas práticas sociais por conta dos avanços tecnológicos e científicos são inumeráveis. No entanto, uma prática permanece quase imutável, cercada e protegida de qualquer mudança fundamental: a escola. Para ser justo, a escola e os professores continuam presos em suas esperanças, mas será que seus alunos continuam os mesmos? A experiência do aprendizado é bela e complexa, não acredito em reduzi-la a um fator principal, pois no final das contas é o conjunto que educa. Sala de aula, amigos, família, cultura, etc. Com a pandemia várias escolas mergulharam em um processo confuso de digitalização, mas é nítido o desconforto dessa experiência. Claro que esse desconforto é justificável, e compreensível, no entanto me pergunto porque não aproveitar a oportunidade de reinventar uma prática que ficou congelada enquanto tanto coisa mudou? Qual o sentido da escola em um mundo conectado? Esse lugar, há muito tempo já não é o único da aprendizagem. A escrita e leitura também já foram as ferramentas de uma elite, que com o tempo foram se democratizando. Será que a Educação midiática pode ser a porta de entrada para uma transformação radical de toda a estrutura do ensino. O ensino que privilegia apenas a memorização de informações não tem mais sentido na era do Google, da Wikipedia e das inteligências artificiais. Mas ainda assim, é o que parece ser a principal preocupação dentro do nosso modelo educacional. Registrar, reportar e documentar são estratégias do mundo analógico. Por outro lado, o letramento digital, poderia aliar a curiosidade e a ludicidade dos games colaborativos e reconhecer a criatividade e o afeto como competências importantes. Esse me parece ser um caminho mais saudável do que manter as clássicas “grades” educacionais da disciplina, da hierarquia, da competição e da desconfiança.

Em seguida, partindo de algumas sugestões bibliográficas (link), fomos desafiados a elaborar uma pergunta com 3 argumentos fortes, sobre porque precisamos levar educação midiática para as escolas. Novamente respondi com uma provocação… afinal também estou sendo provocado a pensar…rs.

Primeiro de tudo já que as escolas estão muito chatas (ou pelo menos algumas aulas…rs), as habilidades digitais podem ser uma forma de estimular a criatividade (1) e a ludicidade (2), além de possibilitar a ampliação dos espaços de colaboração (3).

Me lembrei de Rubem Alves, uma grande inspiração na minha experiência docente.

Complementando essa atividade, nos pediram para apontar 3 pontos principais sobre a importância da educação midiática nas escolas.

1 – Como disse o David Buckingham quanto as mídias, não devemos ser críticos, mas sim reflexivos.

2 – A grande dica da Renee Hobbs é que devemos evitar hierarquizar as mídias, e tentar aprender com a diversidade de fontes que existe vida fora de nossas bolhas.

3 – Segundo o Tomás Durán Becerra a educação midiática não precisa ser ideológica, mas pode ser empoderadora.

No dia 13 tivemos uma live via youtube, com as Coordenadoras do Programa Educamídia, Dani Machado e Mariana Ochs sobre os principais conceitos, exemplos e práticas da educação midiática no Brasil e no mundo. Na live foi lançado o Guia da Educação Midiática. Depois da live fizemos um checkout refletindo sobre os temas abordados e avaliando a experiência.

O que ficou para mim desse primeiro encontro foi uma certa inquietação com o tamanho da responsabilidade dos educadores midiáticos. Por outro lado, também fiquei com a impressão que o tom geral de muitas das questões tratadas pelo EducaMídia podem soar demasiadamente de esquerda (pelo menos para os que não compartilham essa visão de mundo). Mas sensibilizar os que pensam diferente de nós não seria justamente o grande desafio da educação midiática?

Na atividade seguinte a gente mergulhou na mandala das habilidade da educação midiática (link) e depois refletimos sobre aquilo que a gente já sabia, o que aprendemos e o que esperamos aprofundar sobre o tema.

Eu Já conhecia a mandala, desde do livro da MídiaMakers Papers (link) ou seja do modelo da Mozilla Foundation (link). A versão do EducaMídia é mais bonita, as cores nos animam. Mas sei por experiencia própria aq ue na prática, conquistar ou desenvolver essas habilidades não é tão simples assim… Por isso me pergunto será possível reaprender a confiar e a conviver nas redes sociais. ou vamos ter que reinventar essas ferramentas?

No grupo do zap, os colegas estavam falando sobre o documentário O Dilema das Redes (trailer). Me lembrei de quando li o livro Dez Argumentos Para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais do Jaron Lanier (link), eu não deletei, mas fiquei dois anos praticamente sem acessar minhas redes. Uma espécie de detox digital, que começou depois de ver uma reportagem sobre o Scroll Free September, a ideia era ficar um mês longe das redes. Fiquei quase dois anos, com exceção de alguns grupos locais de zap. E mesmo agora mantenho uma relação muito mais equilibrada, menos compulsiva e mais saudável, postando pouco e lendo menos ainda. Sem dúvida uma situação paradoxal para quem pretende trabalhar com linguagens digitais… mas ainda tenho esperanças que a rede do Jimmy Wales vai vingar…rs.

Na atividade seguinte exploramos um conjunto de ” target=”_blank”>cartões com questões sobre Educação Midiática, são ótimas provocações para iniciar um debate em sala. Escolhi o cartão sobre o fenômeno das bolhas para fazer minha colaboração no Jamboard da atividade.

Narciso acha bolha o que não é espelho (imagem da iStock)

Em seguida nos pediram para pensar em uma campanha viral usando hashtags, foram muitas ideias interessantes compartilhadas em um arquivo de slide colaborativo.

Também tivemos Oficinas sobre temas diversos: Diversidade e Consumo com Dani Veronezi, Inteligência Digital com Márcio Gonçalves & Renata Capovilla e Mídias e Participação Social com Bruno Ferreira. Participei dessa última e colaborei listando alguns projetos que envolviam cidadania e cultura digital:

Vou citar três experiências que tive a oportunidade de conhecer de perto: 

1 – a rede dos pontos de cultura – um projeto do Ministério da Cultura (gestão Gil/Juca). A proposta reunia grupos da cultura popular, educadores, artistas, etc.  E estimulava a criação e a colaboração através da cultura digital.  Mais informações – https://andrestangl.wordpress.com/2010/07/12/pontos-de-cultura/

2 – Overmundo – uma rede colaborativa de jornalismo cultural – na época web 2.0 foi uma plataforma que ampliava o acesso a informações sobre a cultura produzida fora do eixo rj-sp.  mais informações –  https://pt.wikipedia.org/wiki/Overmundo 

3 – Ong Eletrocooperativa – um hub de criação, geração de renda e educação midiática para jovens da periferia baiana. – mais informações – http://www.overmundo.com.br/overblog/atras-da-eletrocooperativa-so-n-vai-quem-ja-morreu

Na minha opinião são projetos inspiradores que também nos ensinam a necessidade da reinvenção permanente, já que foram descontinuados. Ou seja, uma das questões mais complexas de qualquer processo educacional ou não que envolvam novas tecnologias e que elas mudam constantemente. Assim, devemos aprender a lidar com sua potência e sua impermanência.

Na próxima etapa a gente aprofundou os aspectos da participação cívica da mandala e refletiu sobre o texto da Mariana Ochs (link).

Ótimo texto, me fez relembrar muita coisa… Entendo a participação cívica como um tipo de ativismo, muito já se falou sobre o impacto das tecnologias na forma como a sociedade se organiza. Acho fundamental aprender a usar essa habilidade, porém temos que ter a humildade de reconhecer que ela não serve apenas para a propagação das pautas progressistas. Escrevi uma breve história do ativismo digital (https://andrestangl.wordpress.com/2012/09/17/tivismo/), o texto é de 2012 e ainda respirava o ar fresco das utopias digitais… mas quem sabe olhando para trás a gente consiga enxergar alguma coisa lá na frente?

Bem até agora foi isso… e esse relato também acabou sendo uma das atividades propostas.

Os recursos do curso (slides, textos, etc) estão reunidos aqui.

Aqui tem uma dica sobre como ativar as legendas dos vídeos em inglês.

Todas as etapas desse relato estão sendo agrupadas na tag #educação-midiática.

Postado originalmente em 20/10/2020

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