A história do link que morreu

Depois de anos, você resolve finalmente voltar àquele site bacana que um amigo lhe indicou. Ou se lembra de uma página que visitava sempre, cheia de dicas de discos, livros, filmes, programas estranhos. Ou apenas tenta reencontrar o seu próprio blog, abandonado em alguma plataforma que você nem sabe mais se existe. Você digita o endereço, segue um favorito esquecido ou encontra um velho link perdido numa mensagem. E então:

404 — página não encontrada.

É uma sensação curiosa. Porque você se lembrava de que aquilo estava ali. Não apenas de uma informação, mas de um lugar. Havia uma homepage, imagens, textos, menus, uma determinada maneira de organizar as coisas. É um pedaço da web que desapareceu. E quase ninguém percebeu. O desaparecimento de sites não parece comover ninguém.

Recentemente, circularam nas redes para horror dos amantes de livros as cenas de lombadas de livros sendo cortados para facilitar a digitalização das páginas e usar o conteúdo no treinamento de modelos de inteligência artificial. A imagem provocou revolta: mesmo sabendo que aquele conteúdo poderia sobreviver em formato digital, a destruição de livros evoca situações desagradáveis de nossa história comum, quando regimes não democráticos queimaram livros e puniram seus donos.

Mas o ponto para o qual quero chamar atenção é que o desaparecimento de sites também deveria nos incomodar, pois é uma parte de nossa memória que vai pelo ralo do esquecimento. Um site pode reunir vinte anos de textos, fotografias, debates, documentos, links e pequenas descobertas acumuladas pelo trabalho de uma pessoa ou de uma comunidade. Então alguém deixa de pagar a hospedagem. Um domínio não é renovado. Uma universidade troca de servidor. Uma empresa fecha. Uma plataforma encerra suas atividades. O endereço deixa de responder e, pouco a pouco, os links que apontavam para aquelas páginas também se tornam inúteis e morrem.

Talvez a WWW seja uma das invenções culturais mais subestimadas do nosso tempo. A web foi radical justamente nisso: deu endereço às coisas e permitiu que uma coisa apontasse para outra. Os links são pontes. O novo livro de Tim Berners-Lee conta essa história. Publicado em 2025 como This Is for Everyone, chega aqui como É pra Todo Mundo: A História Inacabada da World Wide Web. O título resume uma ideia simples que hoje soa quase subversiva: a web é para todo mundo.
Foi em 1989 que a ideia nasceu. A proposta de Tim Berners-Lee era criar um sistema de hipertexto para compartilhar informações entre pesquisadores do CERN. No fim de 1990, ele já havia criado HTML, HTTP e URL, além do primeiro servidor e do primeiro navegador. Há um detalhe bonito: o WorldWideWeb não era apenas navegador. Era também editor. A primeira web foi pensada para ler e escrever.

Outro gesto foi decisivo. Em 1993, o CERN colocou a tecnologia da web à disposição de todos, sem cobrança de royalties. A expansão não dependeria de licença paga nem da autorização de uma empresa. Qualquer pessoa poderia criar um servidor, publicar uma página e apontar para qualquer outra página. Ninguém precisa pedir autorização para criar um link para uma página da UFBA ou da NASA. A URL coloca documentos muito diferentes no mesmo espaço de referência.

Depois, aos poucos, trocamos endereços por plataformas. Não deixamos de publicar. Mas grande parte do que produzimos passou a morar dentro de sistemas fechados. Fotografias ficam no Instagram. Relações profissionais, no LinkedIn. Conversas, em aplicativos de mensagens. Cada plataforma mantém seus dados, suas regras e sua maneira de identificar quem somos. A mudança parece apenas de interface, mas é estrutural e tem consequências culturais e políticas.

Na web original, um navegador podia visitar milhões de sites porque todos concordavam em usar protocolos comuns. No email acontece algo parecido: não preciso usar o mesmo provedor que você para lhe escrever. Protocolos vêm antes das empresas. Nas plataformas sociais ocorreu o contrário. Aplicação e dados foram amarrados. Se aparece um serviço melhor, não levo simplesmente comigo tudo o que acumulei durante anos.

É aqui que o novo livro de Berners-Lee fica mais interessante. Ele não propõe voltar ao GeoCities nem restaurar a internet de 1995. Sua aposta se chama Solid (https://en.wikipedia.org/wiki/Solid_project). O Solid tenta aplicar aos dados um princípio parecido com aquele que tornou a web possível para documentos: separar as coisas que as plataformas grudaram.

Em vez de cada aplicativo guardar meus dados dentro de seu próprio muro, eu poderia ter um espaço pessoal de dados na web, um Pod. Ali poderiam estar perfil, contatos, agenda, documentos e preferências. Aplicativos diferentes receberiam autorização para ler ou escrever apenas aquilo de que precisam. A diferença parece técnica, mas muda a pergunta fundamental. Hoje, ao entrar num serviço, geralmente pergunto: “que dados vou entregar a esta empresa?”

Na arquitetura do Solid, a pergunta poderia ser: “que acesso vou conceder a este aplicativo?” Os dados não precisariam acompanhar o software. O software é que viria até os dados. Imagine trocar de aplicativo de calendário e continuar usando a mesma agenda. Ou experimentar uma nova rede social sem reconstruir perfil e contatos. O Pod pode ser hospedado por um provedor ou pelo próprio usuário; o princípio é que aplicações diferentes possam trabalhar sobre dados controlados por quem os produz.

Tim Berners-Lee está trabalhando nessa ideia há anos e, em 2018, cofundou a Inrupt para transformá-la em uma infraestrutura utilizável por organizações. Não se trata apenas de privacidade. Trata-se de interoperabilidade e poder de escolha. As inteligências artificiais tornam isso ainda mais urgente. Um assistente realmente útil precisará conhecer partes importantes de nossa vida: agenda, documentos, mensagens, preferências e projetos. Quanto mais personalizado for o agente, mais dados terá de consultar. Mas onde estarão esses dados e quem controla o acesso a eles?

No modelo dominante, podemos acabar entregando ainda mais informações pessoais a algumas poucas empresas para que seus agentes nos conheçam melhor. O Solid sugere outra possibilidade: o agente acessa, mediante autorização, dados que continuam sob controle do usuário. Posso permitir que leia minha agenda sem entregar todo o restante. Posso autorizar hoje e retirar a autorização amanhã.

Berners-Lee contrapõe no livro duas lógicas. A economia da atenção procura descobrir o que consegue nos fazer olhar, clicar e permanecer numa plataforma. A “economia da intenção” começaria pelo movimento contrário: o que eu quero fazer? Nesse cenário, agentes seriam ferramentas trabalhando a partir de nossas intenções, e não apenas máquinas disputando nossa atenção.

É uma proposta ambiciosa, e nada garante que vá prevalecer. Padrões técnicos não derrotam sozinhos modelos de negócio ou efeitos de rede. A própria história da web mostra que uma arquitetura aberta pode conviver com estruturas muito concentradas. Mas gosto do fato de Berners-Lee responder a uma crise tecnológica refazendo a própria tecnologia. Ele não diz apenas que as redes sociais ficaram ruins. Volta à arquitetura. Pergunta que protocolos e padrões poderiam redistribuir poder.

Sou um fazedor de sites. Já fiz vários e já perdi alguns, mas ainda gosto dessa velha ideia de um espaço sem muros: qualquer pessoa pode construir um endereço, organizar ali um pequeno pedaço do mundo e conectá-lo a outros endereços. A proposta de Tim Berners-Lee é generosa e deveria ser mais debatida. Talvez assim os links não precisem morrer.

Coescrito com uma IA.

Andre Stangl, 2026.
Coluna do Museu de Novidades
Publicada em 12/09/2026 no Jornal Correio e PDF.
Imagem gerada com ChatGPT Image por Andre Stangl.

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