Um dos fenômenos mais intrigantes da vida contemporânea é a sensação recorrente de estarmos vivendo em mundos paralelos. Como se cada um habitasse uma bolha própria, na qual preocupações, urgências e até temas óbvios fossem muito diferentes daqueles que mobilizam os vizinhos de bolha. Inteligência artificial, mudanças climáticas, guerras, geopolítica, mercado financeiro, novos medicamentos, crises institucionais, celebridades, futebol ou violência urbana podem parecer centrais para alguns grupos e quase invisíveis para outros.
Sem a pretensão de considerar a inteligência artificial o único assunto relevante do momento, reconheço que, nos últimos anos, tenho habitado intensamente essa bolha da IA. No começo, isso produzia uma sensação curiosa de deslocamento, quase como se eu fosse um alienígena tentando conversar sobre temas urgentes para mim, mas distantes para quase todos ao redor.
Nos últimos meses, porém, essa sensação deixou de ser solitária. Graças à iniciativa de Messias Bandeira, formou-se na UFBA um grupo aberto de conversas semanais sobre IA (link), reunindo pesquisadores, professores, estudantes e interessados de diferentes áreas. O mais interessante nesses encontros não é apenas trocar informações sobre ferramentas ou modelos, mas pensar coletivamente como a IA atravessa a educação, a pesquisa, a cultura, o trabalho, a saúde, a política e a própria forma como produzimos conhecimento. É um grupo em formação, com algo de laboratório e de roda de conversa.
Um exemplo recente ajuda a entender essa mistura entre bolha informativa, corrida econômica e disputa geopolítica. Em junho de 2026, o governo dos Estados Unidos determinou que a Anthropic suspendesse o acesso de cidadãos estrangeiros aos modelos Fable 5 e Mythos 5, alguns dos mais avançados da empresa. A justificativa foi a segurança nacional: modelos desse tipo poderiam ampliar capacidades de ciberataque, identificar vulnerabilidades em sistemas sensíveis ou ser apropriados por potências rivais.
Dentro da bolha da IA, a notícia teve o efeito de um terremoto. De repente, um modelo deixou de ser tratado apenas como produto ou plataforma comercial e passou a ser enquadrado como recurso estratégico. Fora desse circuito, porém, é provável que o episódio tenha passado quase despercebido. Para alguns, a proibição sinaliza uma virada histórica na relação entre IA, soberania e segurança; para outros, é apenas mais uma notícia técnica, distante, vinda de uma disputa entre empresas e governos estrangeiros.
O segundo exemplo aparece na coluna de Igor Patrick sobre a China, ao mostrar que a crise provocada pela IA já deixou de ser especulação futurista e passou a reorganizar políticas públicas concretas. Segundo ele, o governo chinês vem revendo o ensino superior, reduzindo áreas consideradas saturadas, como marketing e tradução, e abrindo espaço para formações ligadas à robótica, à biomanufatura e à IA comercial. O motivo é inquietante: a inteligência artificial começa a corroer a antiga promessa de que o diploma universitário protegeria contra a insegurança do trabalho.
O choque está justamente aí. A tecnologia não veio apenas substituir braços nas fábricas ou no campo; veio disputar cérebros, atingindo o trabalho cognitivo de profissionais escolarizados. E, diante dessa tempestade, enquanto a China tenta planejar sua defesa, o Brasil parece avançar quase sem plano, sem sequer perguntar que competências poderão sustentar a sociedade que deseja construir.
Martin Wolf, comentarista-chefe de economia do Financial Times, formulou bem o problema ao perguntar se a inteligência artificial é uma bênção, uma maldição ou uma bolha. Seu argumento é que a IA pode estar envolvida numa bolha econômica, mas isso não significa que seja uma ilusão vazia. Há bolhas meramente especulativas, que estouram e deixam pouco legado. Mas há também bolhas em torno de tecnologias reais, capazes de transformar a economia mesmo depois da queda das expectativas exageradas.
Wolf compara a situação atual aos booms ferroviários do século 19 e à bolha das empresas pontocom. Em ambos os casos houve euforia, excesso de investimento e perdas financeiras. Mas também restaram infraestruturas decisivas: trilhos, redes, cabos, plataformas, hábitos e modelos de negócio que reorganizaram o mundo. A hipótese é que a IA talvez pertença a esse segundo tipo de bolha. Os mercados podem estar exagerando ao precificar empresas como Nvidia, Anthropic e OpenAI, mas há uma realidade tecnológica e econômica por trás do entusiasmo.
A bolha econômica da IA, nesse sentido, não está separada de uma bolha política e cultural. Empresas e governos investem em escala crescente porque temem ficar para trás. Mesmo quando reconhecem riscos — desemprego, concentração de riqueza, vigilância, desinformação e ameaça à democracia —, continuam acelerando. A bolha nasce da expectativa de lucros extraordinários e da crença de que a inteligência artificial será um dos eixos inevitáveis do futuro.
O próprio conceito de bolha ganhou novos sentidos na vida digital. Ela passou também a designar um ambiente perceptivo: não apenas um excesso de preço, mas de atenção; não apenas uma distorção do mercado, mas das proporções do real. A expressão filter bubble, ou “bolha de filtro”, foi popularizada por Eli Pariser para descrever como sistemas personalizados organizam o mundo de acordo com aquilo que calculam ser compatível com nossos interesses. Buscas, cliques, curtidas e tempo de permanência alimentam perfis que devolvem conteúdos semelhantes, criando um circuito de retroalimentação.
A imagem da bolha é feliz porque sugere um espaço ao mesmo tempo protetor, transparente e distorcido. Quem está dentro dela ainda vê o mundo exterior, mas através de uma película curva, frágil e personalizada. A bolha não precisa mudar a paisagem. Basta organizar a visibilidade: alguns conteúdos aparecem mais, outros menos; certos temas se repetem, certas emoções são intensificadas, certas surpresas são reduzidas.
A consequência é uma reorganização das proporções do real. Algo minoritário pode parecer majoritário. Um assunto restrito pode parecer universal. Uma ansiedade de nicho pode parecer espírito do tempo. É isso que acontece com a inteligência artificial em certos ambientes. Para quem pesquisa, usa ou trabalha com IA, os algoritmos passam a devolver mais notícias, cursos, ferramentas, vídeos, artigos e debates sobre IA. A atenção dedicada ao assunto produz a impressão de que o mundo inteiro está tomado por ele.
Por isso, iniciativas como as rodas de conversa na UFBA são importantes. Não porque nos tirem magicamente das bolhas, como se fosse possível ocupar uma posição exterior, neutra e total. Mas porque tornam a bolha visível. Quando pessoas de áreas diferentes se reúnem para conversar sobre inteligência artificial, cada uma traz urgências, repertórios, medos e expectativas. A conversa não elimina as diferenças, mas impede que cada percepção se feche sobre si mesma.
Talvez esse seja um dos desafios centrais do nosso tempo: aprender a habitar bolhas sem confundi-las com o mundo inteiro. A inteligência artificial pode ser, ao mesmo tempo, uma bolha econômica, uma bolha de atenção, uma disputa geopolítica, uma revolução técnica, uma promessa exagerada e uma transformação real. O erro está em escolher apenas uma dessas dimensões e tratá-la como se explicasse todas as outras.
No fundo, as bolhas não são apenas prisões. Elas também podem ser espaços de atenção compartilhada, onde um tema ganha densidade, vocabulário e comunidade. O problema começa quando esquecemos que há outras bolhas ao lado, outras urgências, outras vidas acontecendo. A pergunta, então, não é apenas se a inteligência artificial é uma bolha, mas que tipo de bolha estamos construindo em torno dela: uma bolha fechada, guiada por mercado, medo e competição, ou uma bolha porosa, como as espumas de Sloterdijk, capaz de reunir pessoas diferentes para pensar que tecnologias queremos, para quem, com quais limites e a serviço de quais formas de vida?
(coescrito com uma IA.)
Andre Stangl, 2026.
Coluna do Museu de Novidades
Publicada no dia 27/06/2026 no Jornal Correio (link) e (pdf).
Imagem gerada com chatgpt image por Andre Stangl
