Uma dose de saúde digital

Saúde é um conceito complexo. Cada época ou cultura tem sua própria forma de tentar defini-lo. Assim, por ser um conceito tão variável e subjetivo, acaba sendo mais fácil reconhecer quando não estamos com saúde, ou seja, quando estamos doentes. Na prática, só percebemos o que é saúde justamente quando a perdemos. Mas não precisa ser assim e, por isso, desenvolvemos tantas formas de nos cuidar e prevenir doenças. Inclusive, criando instrumentos que permitam mensurar de forma mais objetiva o estado de nossa saúde. 

Cada época ou cultura conta com seus próprios instrumentos e com suas próprias métricas para nos ajudar a saber se estamos saudáveis, ou se é o caso de mudar algum hábito. Por exemplo, o termômetro médico foi aprimorado no século XVI e o aparelho de medir pressão sanguínea só apareceu no século XIX. Mas, hoje, temos uma infinidade de equipamentos e aplicativos para monitorar e avaliar nossos corpos e mentes. Basta dar uma olhada no site da Summit Saúde para ver como o uso das tecnologias na medicina está crescendo. 

Mesmo sabendo que no Brasil muitas pessoas ainda não têm acesso nem ao básico – e que um pouco de saneamento, alimentação saudável e informações sobre autocuidado já seriam revolucionários na qualidade de vida de muitas pessoas – sem dúvida seria interessante encontrar formas de estimular o uso dos aplicativos de saúde e bem estar. Existem muitos aplicativos gratuitos (ou quase) que nos lembram de beber água, que organizam os horários de tomar medicações, que calculam as calorias dos nossos alimentos, que ajudam a meditar, outros medem glicemia em tempo real, ou mesmo a qualidade do nosso sono.

O Google fit, por exemplo, é um aplicativo que organiza informações de monitoramento de nossas atividades, agregando dados de diversos outros aplicativos. Além disso, criaram, junto com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um sistema de pontuação para indicar uma meta mínima de atividades diárias para evitar problemas cardíacos. Basta instalar o aplicativo para ele começar a registrar nossos movimentos, desde uma ida ao supermercado ou uma caminhada até o trabalho. Semelhante a um game, você faz pontos e pode acompanhar sua evolução na medida que conquistar suas metas.  

A forma como lidamos com o sistema médico também está passando por mudanças profundas. A telemedicina amplia o acesso a consultas com profissionais antes inacessíveis, facilita o acesso a exames, diagnósticos, entre outras vantagens importantes, como vimos agora na pandemia. Além disso, é cada vez mais comum que o paciente chegue a uma consulta médica portando um verdadeiro dossiê sobre os sintomas, possíveis diagnósticos e tratamentos. Graças ao Dr. Google. Isso foi um grande avanço no sentido de diminuir nossa desinformação sobre questões médicas e, é evidente, que só reforça a importância de bons profissionais na área médica. Possivelmente, ficou mais difícil para um profissional despreparado exercer a profissão. 

Segundo o filósofo e historiador Yuval Harari, com o avanço dos sistemas de inteligência artificial, até o emprego de alguns médicos estaria ameaçado. Médicos que se limitam apenas a analisar exames feitos por máquinas podem ser substituídos por máquinas que podem analisar e fazer os exames sozinhas, com muito mais velocidade e precisão. Segundo ele, na área médica restará aos humanos o delicado trabalho das enfermeiras, já que as máquinas ainda não sentem empatia

Segundo Yuval, nós ainda não temos a real dimensão da revolução que está em curso por conta da fusão entre biotecnologia e big data. Atualmente, a quantidade de dados biométricos que podem ser monitorados em tempo real por sistemas inteligentes já é capaz de detectar o surgimento de doenças antes mesmo de nós sentirmos qualquer coisa. Segundo ele, com esse grau de monitoramento, todos sempre estarão doentes, pois sempre haverá algum aspecto que pode ser aprimorado para sermos mais saudáveis. Seria mais ou menos como as mensagens que recebemos em nossos equipamentos  eletrônicos indicando que é necessário atualizar algo, mas no nosso caso poderia ser uma nova uma dieta ou medicamento. 

Outra grande questão atrelada ao uso desses sistemas de monitoramento de saúde, além dos óbvios benefícios, é a necessidade de proteger nossos dados e nossa privacidade. É fundamental que existam leis como a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) para garantir que nenhuma informação seja usada sem nossa autorização. Os dados são o petróleo dos dias atuais, assim, imagine o que uma empresa desonesta pode fazer com informações sobre sua saúde. Por isso é importante também saber dosar a utilização dessas ferramentas. O objetivo é melhorar a qualidade de vida, não aumentar o stress com um excesso de notificações.

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Andre Stangl – Ouro Preto-MG, publicado em 28/01/2022
Professor de filosofia (CEOP), Educador Digital e Doutor em Comunicação (ECA/USP)
Coordenador da Oficina de Linguagens Digitais

Essa coluna também foi publicada em texto (link) e áudio (link) na Agência Primaz.

Crédito da imagem: “Runkeeper and health on iPhone” by Jason A. Howie is licensed under CC BY 2.0

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