Por que coescrevo com IA?

Em fevereiro, a Folha de S.Paulo tornou-se palco de um dos debates mais intensos já travados no jornalismo brasileiro sobre inteligência artificial, autoria e confiança editorial.

A controvérsia começou quando a ombudsman do jornal relatou a reclamação de um leitor sobre uma colunista que estaria usando IA para escrever. Depois, a colunista assumiu utilizar IA. A reação foi imediata. Os comentários rapidamente escalaram para acusações morais: fraude intelectual, preguiça cognitiva, ameaça à cultura, morte da escrita. Os leitores também falaram que se sentiram traídos. A maioria dos comentários tinha um tom hostil, com doses de misoginia implícita e iafobia explícita.

O episódio expôs algo interessante: para muitas pessoas, a simples presença de inteligência artificial no processo de escrita parece ameaçar a própria ideia de autoria. Mas essa não é a primeira vez que uma tecnologia provoca esse tipo de reação.

Quando a fotografia surgiu no século XIX, muitos artistas reagiram com indignação. Para parte do mundo das artes, a nova técnica parecia ameaçar o próprio sentido da pintura. Afinal, se uma máquina podia capturar imagens do mundo com precisão inédita, o que restaria ao pintor?

Mas a história mostrou algo diferente. A fotografia não destruiu a pintura — a transformou. Libertados da obrigação de reproduzir fielmente o real, muitos pintores passaram a explorar novos caminhos estéticos. Impressionismo, expressionismo e abstração floresceram justamente depois da popularização da fotografia. Talvez algo semelhante esteja acontecendo agora com a inteligência artificial.

Porém parte da intensidade dessas reações também pode estar ligada a projeções mais profundas sobre tecnologia e destino histórico. O filósofo Yuk Hui chama atenção para a presença de um imaginário escatológico no modo como pensamos as tecnologias contemporâneas no Ocidente.

Muitas ideias sobre progresso e “fim da história” podem ser interpretadas como versões secularizadas da escatologia religiosa — ou seja, a crença em um desfecho final da trajetória humana. No contexto atual, a inteligência artificial passou a ocupar frequentemente esse lugar simbólico. Ela aparece tanto em cenários de salvação — como a promessa de uma superinteligência — quanto em cenários apocalípticos, como a perda de controle sobre máquinas ou o desaparecimento do humano.

Segundo Hui, essa imaginação escatológica projeta sobre a tecnologia expectativas e medos herdados de tradições religiosas, o que pode obscurecer uma compreensão mais plural e concreta do desenvolvimento tecnológico.

Uma imagem famosa ajuda a compreender esse tipo de sensibilidade histórica. Em 1940, o filósofo Walter Benjamin escreveu seu célebre comentário sobre a pintura Angelus Novus, de Paul Klee. Benjamin descreve o quadro como a imagem do “anjo da história”. O anjo olha para o passado e vê não uma sequência de acontecimentos, mas uma única catástrofe que acumula ruínas sobre ruínas. Ele gostaria de parar e reparar o que foi destruído, mas uma tempestade o empurra irresistivelmente para o futuro. Essa tempestade, escreve Benjamin, é aquilo que chamamos progresso.

Benjamin escreveu essas linhas em um momento dramático de sua vida. Judeu e intelectual marxista heterodoxo, fugia da perseguição nazista enquanto assistia ao colapso da Europa que havia formado sua geração intelectual. Nesse contexto, o “anjo da história” tornou-se uma imagem melancólica de uma humanidade empurrada para o futuro enquanto contempla as ruínas do passado.

Talvez parte do desconforto contemporâneo diante das tecnologias também se conecte a esse tipo de imaginário histórico — a sensação de que cada avanço carrega consigo perdas inevitáveis. Essa sensibilidade, porém, não é universal. Ela faz parte da tradição cultural do Ocidente.

Uma reportagem recente do New York Times descreveu respostas muito diferentes ao lançamento da ferramenta chinesa de geração de vídeo Seedance 2.0. Nos Estados Unidos, muitos profissionais da indústria audiovisual reagiram com preocupação, temendo substituição profissional. Na China, a reação foi quase oposta. Não se trata necessariamente de ingenuidade tecnológica. Trata-se de outro contexto cultural. Na China, a IA aparece principalmente como infraestrutura cotidiana: táxis autônomos, chatbots médicos, assistentes digitais integrados a aplicativos de transporte e compras. A tecnologia surge menos como ameaça abstrata e mais como ferramenta prática de melhoria coletiva, em um cenário de forte controle estatal e menor opacidade do mundo empresarial.

Aqui peço licença para falar um pouco da minha própria experiência. Sim, eu escrevo usando inteligência artificial. Não escondo isso. Ao contrário: transformei essa prática em objeto de estudo, em tema de curso e em debate público. Desde 2023 declaro explicitamente que minhas colunas aqui no Correio contam com assistência de IA. Como educador, considero quase uma obrigação experimentar. Não é possível orientar estudantes sobre algo que não se testou. Justamente por isso transformo o processo em reflexão. Não é possível discutir os limites éticos, cognitivos ou estéticos da IA sem atravessar essa experiência. Eu testo modelos, formatos, graus de delegação. Testo sabendo dos riscos de automatismo, acomodação e dependência.

Estamos vivendo uma transferência parcial de tarefas cognitivas. Síntese, organização, variação estilística e pesquisa estruturada podem ser parcialmente delegadas a sistemas estatísticos. Isso já está acontecendo. A questão não é impedir essa transferência, mas aprender a lidar com ela de forma consciente. E essa é, em grande parte, uma questão pedagógica.

A escrita sempre foi mediada — pelo alfabeto, pela imprensa, pelo editor, pelo computador. A diferença agora é que a mediação responde, sugere e reorganiza. Se fingimos que ela não está ali, reforçamos a fantasia da autoria imaculada. Se a tematizamos, ganhamos instrumentos para pensar o que estamos fazendo.

A coescrita pode ser entendida como uma espécie de fotografia do pensamento. Depois de revelar o filme, ou executar o prompt, nem sempre o resultado é o esperado. O modelo pode gerar bons parágrafos e a máquina fotográfica pode gerar fotos belíssimas. Mas o equipamento não gera, sozinho, um percurso. Assim como o simples acesso a uma câmera não nos transforma em um Sebastião Salgado, o acesso aos modelos de IA não vai nos transformar em escritores sem um percurso de leituras, conversas e experiências.

Essa situação aparece de forma curiosa no curta experimental criado com a IA Seedance pelo diretor chinês Jia Zhangke. No vídeo, ele encena um diálogo metaficcional entre uma versão do humana do diretor e uma versão algorítmica de si mesmo. O resultado é irônico e bem-humorado. Não há ali a sombra de Skynet nem o peso trágico do Angelus. Apenas uma reflexão leve sobre criação, autoria e colaboração entre humanos e máquinas, ao som dos Pet Shop Boys.

Talvez a pergunta central não seja se devemos usar inteligência artificial para escrever e criar. Acho que a questão é outra: como vamos reaprender a pensar em um ambiente cada vez mais mediado por sistemas técnicos.

Se a escrita sempre foi atravessada por instrumentos — do pincel ao teclado. A inteligência artificial apenas torna essa mediação mais visível e interativa. Nesse contexto, a autoria não desaparece. Ela muda de forma. Deixa de ser a fantasia de uma origem pura, quase divina, e passa a ser responsabilidade sobre um processo mediado com nossas tecnologias.

Escrever com inteligência artificial, para mim, é assumir essa mediação e trabalhar conscientemente com ela. Por isso chamo esse processo de coescrita e essa coluna é mais um exemplo disso.

(Este texto foi coescrito com uma IA.)

Andre Stangl, 2026.
Coluna do Museu de Novidades
Publicada no dia 07/03/2026 no Jornal Correio (link) e (pdf).
Imagem gerada com chatgpt image por Andre Stangl

Veja aqui outra versão desse texto com mais detalhes sobre a coescrita:

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